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Mente e Cérebro traz discussão: “o que ainda é normal?”

09/03/2013
Mente e Cérebro traz discussão: “o que ainda é normal?” Será lançada a quinta edição do Manual de Diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria. Alguns críticos dizem que a nova publicação vai elevar drasticamente o número de pacientes com doenças psíquicas. Entenda por quê!
 
 
 
“Você é normal?” é o tema da matéria de capa da revista Mente e Cérebro, da Duetto Editorial, de janeiro. “Os padrões de normalidade podem ser bastante difusos e, não raros, subordinados a interesses políticos e econômicos”, comenta a editora da publicação, Gláucia Leal, na seção Carta ao Leitor.
 
Isso fica claro, para muitos críticos, cada vez que é lançado o DSM – Manual de Diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria -, que representa a base para  a definição das doenças psíquicas. Sua quinta versão, deve ser publicada em maio, é um verdadeiro acontecimento internacional não só no campo da saúde, mas também no da economia. A inclusão de novas doenças no manual pode interessar principalmente à indústria farmacêutica – setor que movimenta mais de US$ 28 bilhões anualmente, só no Brasil.
 
“É notável que vivemos numa época em que a medicalização muitas vezes parece ser a resposta definitiva a todos os sofrimentos do corpo e da mente, sem espaço para desdobramentos e interpretações de sentidos”, diz Leal.
 
Segundo o psicólogo Jochen Paulus, que assina o artigo da Mente e Cérebro, todos os grupos de estudos querem ver uma patologia ou problema psíquico ganhar ênfase para entrar no DSM. Porém, o periódico British Medical Journal, publicou uma matéria dizendo que 56% dos profissionais que trabalham na elaboração do DSM-5 já receberam dinheiro da indústria farmacêutica, o que pode comprometer sua isenção.
 
Professor emérito de psiquiatria, Allen Frances, tem se destacado como grande crítico do DSM-5. Ele alerta contra o que chama de “inflação das patologias”: “todo grupo de trabalho tende a esticar os limites dos transtornos em sua área”. Afinal, nenhuma pessoa que precisa de ajuda deveria ser ignorada.
 
Frances teme, por exemplo, que a sugestão para o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) seja aceita e passe a fazer parte da obra. “Dezenas de milhões de pessoas que comerem uma vez por semana de forma compulsiva durante três meses serão repentinamente estigmatizadas como doenças psiquiátricas e receberão medicamentos com efeito ainda não comprovado, o que é grave”, afirma.
 
Para que haja diagnóstico de transtorno de compulsão alimentar periódica é necessário que a pessoa apresente descontrole em relação à comida em apenas metade dos dias da semana. O que tudo indica, futuramente um número ainda maior de mulheres vai, oficialmente, sofrer bulimia e anorexia, já que os critérios previstos deixam margem mais ampla para o diagnóstico.
 
Assim como nos casos de transtorno alimentar, várias discussões giram em torno da mesma questão: no futuro muito mais pessoas serão diagnosticadas com algum problema psiquiátrico sem razão.