Notícia

A melhor vitamina não vem em cápsula

Fonte: Correio Beaziliense
29/05/2013
A melhor vitamina não vem em cápsula

Normalmente, basta ingerir refeições equilibradas para atingir a quantidade de minerais e nutrientes necessários ao bom funcionamento do organismo. Os casos de suplementação precisam ser indicados por especialistas.

Belo Horizonte — Está indisposto? Tome algum complexo vitamínico. Quer abrir o apetite ou simplesmente garantir boa saúde? Vitaminas também. Consumir as famosas cápsulas vendidas em farmácias tornou-se garantia de bem-estar. Mas os conselhos não passam de mitos. Embora muita gente tenha o hábito de ingerir essas substâncias sintéticas, especialistas não a recomendam para quem está com a saúde em dia. Lançar mão desses suplementos nutricionais em excesso pode ter efeito nulo ou, dependendo do caso, até ser prejudicial ao organismo.

Segundo o coordenador do Centro de Referência da Saúde do Idoso do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Edgar Nunes de Moraes, as vitaminas são essenciais para a vida e estão diluídas nos diversos alimentos consumidos diariamente. Por isso, recomenda-se uma alimentação equilibrada. A suplementação vitamínica só é indicada quando são diagnosticadas por um especialista deficiências no organismo. “Os pacientes apresentam carência de vitaminas porque não se alimentam bem ou porque o organismo não dá conta de absorvê-las por conta de alguma doença ou de outro tipo de dificuldade. Nesses casos, receitamos os suplementos”, diz o médico.

De acordo com Moraes, ao ter uma alimentação equilibrada, é “praticamente impossível” que a pessoa não consiga todas as vitaminas de que o corpo dela precisa. Nos casos de homens e mulheres saudáveis que dizem se sentir melhor ao ingerirem as vitaminas sintéticas, eles geralmente são “vítimas” de um efeito placebo. “O benefício de qualquer suplementação só é comprovado quando a pessoa tem deficiência”, explica Polyana Mota de Carvalho, nutricionista do mesmo centro de referência.

Uma das carências mais comuns detectadas nos consultórios é a de vitamina D, presente no leite, sintetizada pelo sol e de grande importância para os ossos. “Na hora da pasteurização do leite, ela é destruída. Então, muitos fabricantes têm que acrescentá-la novamente”, explica Moraes. Segundo o médico, o cálcio — que não é vitamina, mas um mineral muito importante para cabelos, unhas e dentes e um protetor contra doenças ósseas, como a osteoporose — geralmente é consumido de forma sintética. Para quem não come laticínios, o cálcio pode ser encontrado em alimentos como o brócolis, o espinafre, o queijo de soja (tofu) a couve e a laranja. “A dose ideal é de cerca de 500mg a 1g por dia, o que equivale entre duas e quatro xícaras de leite”, afirma Moraes.

Em excesso, a vitamina D atua no metabolismo do cálcio e aumenta a absorção intestinal do mineral, podendo causar hipercalcimia. “Mas isso ocorre em casos raros e em doses altas da vitamina D na forma medicamentosa”, pontua o médico Edgar Nunes. As vitaminas A, D e E são lipossolúveis — acumulam na gordura do corpo —, por isso, podem causar problemas mais graves quando ingeridas além do necessário.

“No caso da vitamina E, alguns trabalhos mostram que, em doses altas, ela pode estar associada ao aumento de câncer e de mortalidade, podendo até causar um acidente vascular cerebral hemorrágico”, diz Edgar Nunes. Mas o médico destaca que isso só ocorre em megadoses e, principalmente, se associadas ao uso de ácido acetilsalicílico e ginkgo biloba. Já o exagero no consumo da vitamina A pode levar à osteoporose, pois o composto orgânico atua inibindo a célula que leva a formação óssea e descalcifica o osso.

Mais comum na faixa etária de 25 a 60 anos, a deficiência de vitamina B-12 também acomete cerca de 10% da população acima de 65 anos. Estudos norte-americanos demonstram que pelos menos 1% da população de idosos desenvolve consequências graves por conta do problema, como distúrbios neurológicos e psiquiátricos, e anemia megaloblástica (referência ao megaloblasto, glóbulo vermelho que se encontra na medula óssea). A vitamina B-12 é absorvida pelo trato gastrointestinal a partir de alimentos como leite, carnes e ovos.

Misturas perigosas

Além dos cuidados com a quantidade de vitamina ingerida, é preciso levar em conta os efeitos da mistura das suplementações necessárias, observa Polyana de Carvalho. “O que a gente tem na nutrição são várias combinações de vitaminas e de sais minerais. O cálcio interage com o ferro prejudicando a absorção de ambos. Então, não serviria um polivitamínico para tratar deficiência de ferro porque esse complexo não tem as quantidades suficientes. Ou seja, a absorção pode ser prejudicada ou otimizada no polivitamínico”, exemplifica.

O psicoterapeuta Marco Antônio De Tommaso observa outro fator ligado ao consumo indiscriminado de vitaminas que está relacionado à saúde. Pessoas que têm obsessão pela alimentação saudável podem ter ortorexia nervosa, um problema que pode desequilibrar a presença desses compostos orgânicos no corpo humano. “A pessoa deixa de comer coisas saudáveis, mas que não têm esse caráter para ela. É uma reação parecida com a do anoréxico, que tem obsessão pela magreza”, explica.

Três perguntas para

Marco Antônio De Tommaso, psicoterapeuta

O que caracteriza a ortorexia nervosa?

O ortoréxico é um indivíduo que abole uma série de nutrientes necessários em nome dessa ideia de “comer bem”.  A pessoa deixa de comer coisas saudáveis, mas que não têm esse caráter para ela. É uma reação parecida com a do anoréxico, que tem obsessão pela magreza.

O que mais indica o problema?

A pessoa pode se locomover por grandes distâncias e até mesmo se endividar para comprar aquele alimento que acredita ser mais saudável, além de deixar de fazer coisas importantes para buscar um hábito alimentar melhor. Há o caso de uma jovem publicitária que procurava um emprego. Ela conseguiu em uma grande empresa, mas o recusou porque teria que almoçar no restaurante da firma, o que, na ideia dela, seria abandonar os hábitos saudáveis que tinha.

E como é o tratamento da doença?

Dificilmente o indivíduo com ortorexia nervosa vai admitir que está com a doença. A observação de familiares e de pessoas próximas, nesse caso, é essencial para se descobrir a doença. Se a família estiver atenta, começa a perceber o grau de exigência que a pessoa está fazendo daquele alimento, o tempo que perde em cima disso ou vê que o indivíduo começa a não se interessar por uma salada convencional. O tratamento é multidisciplinar, incluindo orientação nutricional e auxílio terapêutico.

Onde encontrar

» Vitamina A: frutas e legumes amarelos, laranjas ou vermelhos. É importante para a visão e para a formação do acido retinoico

» Vitamina B12: alimentos de origem animal, como leite e derivados, ovos e carnes. Melhora a condição mental

» Vitamina C: frutas cítricas

» Vitamina D: alimentos fortificados, alguns leites e peixes de águas profundas, como arenque, salmão, sardinha. No organismo, é sintetizada pelo sol

» Vitamina E: todos os tipos de gordura, como óleos vegetais, manteiga, leite integral, oleaginosas e abacate